Empreendedorismo Social e Administração no Terceiro Setor

14/06/2014 21:25

 

 

Quando ouvimos falar em administração ou quando imaginamos grandes administradores em suas empresas numa queda de braço constante por uma fatia de “bolo” no mercado sempre nos vem à cabeça a busca pelo lucro monetário, ou seja, seu objetivo único e plenamente é o lucro. Porém nos últimos anos esta história vem mudando, muitas empresas estão sustentando seu lado social tanto quanto o pecuniário. Isto é de maneira resumida o terceiro setor, um conjunto de organizações e iniciativas privadas que visam à produção de bens e serviços públicos.

 

ADMINISTRANDO O TERCEIRO O SETOR

 

Para se situar às mudanças inerentes da nova economia precisamos visualizar onde e como estão inseridas as organizações.

 

Características como alternâncias de situações e a incerteza e vulnerabilidade do mercado, tornam mais difíceis o cotidiano das organizações que cada vez mais devem se estruturar, desenvolver e aplicar novas habilidades e buscar sair na frente para sobreviver à competição voraz do atual sistema.

 

O aprendizado organizacional vem a calhar com essas qualidades que as organizações mais preparadas e com visão duradoura desenvolvem. Segundo Peter Senge, “organizações que aprendem são mais flexíveis, adaptáveis e mais competitivas, ao passo em que aprendem mais rápido que seus concorrentes”.

 

Esse processo foi fator primordial para que o Estado assumisse nova postura diante da rigidez do controle do bem estar social à flexibilidade quanto à privatização das necessidades coletivas e da seguridade social; haja visto os resultados obtidos com os novos padrões de sociedades e organizações não governamentais.

 

Com isso, a maior abrangência e atuação da sociedade civil vieram a se tornarem realidades com surgimento de um novo bloco: O Terceiro Setor.

 

Mas o que vem a ser Terceiro Setor? Nada mais é que um conjunto de organizações e iniciativas privadas que visam à produção de bens e serviços públicos. As relações entre Estado e Mercado são estreitadas e transformados pelo Terceiro Setor, também chamado de

associações voluntárias.

 

Os vínculos entre aprendizagem organizacional e terceiro setor devem ser harmoniosas, já que quando feito um projeto ou iniciativa num ambiente de aprendizagem, a organização do Terceiro Setor ganha em significância e relevância social, sobretudo pela capacidade e concretização dos resultados se perdurarem na visão da sociedade beneficiada.

 

A pergunta que fica é: “Como administrar o Terceiro Setor?”.

 

Existem muitas semelhanças na administração de organizações em todos os setores da economia. Todas dependentes de administradores capacitados que necessitam ter objetivos, controlar recursos, trabalhar em equipe, desenvolvimento profissional e saber lidar com críticas e elogios.

 

Sendo assim, estão na capacidade e profissionalismo dos administradores a solução para se amenizar os problemas de gestão encontrados no Terceiro Setor.

 

A diferença no volume das transações é uma das principais dificuldades que os profissionais em administração encontram quando mudam seus campos de atuação, pois os recursos são escassos no Terceiro Setor.

 

O perfil das organizações do Terceiro Setor no Brasil parece, à primeira vista, apenas confirmar a percepção de que o problema do setor é, fundamentalmente, um problema de competência na gestão: operando em um meio desfavorável, caracterizado pela falta de recursos e apoio do poder público, as organizações não conseguem romper o ciclo vicioso:

 

 

1-Falta de recursos Humanos capacitados que provoca um

2-Gerenciamento Inadequado que provoca

4- Falta de Dinheiro que provoca

5- Insuficiência de Resultados.

 

 

O aperfeiçoamento na gestão operacional tem um papel relevante na ruptura de tal ciclo, ocasionando um gerenciamento mais satisfatório permitindo o alcance de resultados positivos que permitirão a capacitação de recursos suficientes e a atração de profissionais qualificados, superando às adversidades do meio.

 

Esse aperfeiçoamento na gestão vem somado ao aprendizado organizacional, que através da educação continuada, assessorias, contratação de profissionais e adoção de técnicas e práticas de administração estão, de fato, revolucionando o Terceiro Setor.

 

As organizações do Terceiro Setor que almejam sucesso estão cada vez mais próximas das organizações privadas e públicas com relação à forma de agir. Essas se utilizam, de técnicas como: definir uma orientação, o processo, serviços, planejamento, acompanhamento e a avaliação dos resultados. Tudo isso para sobreviverem ao competitivo mercado e romper os laços com o amadorismo e informalidades que as acompanhavam até tal mudança.

 

Já não basta mais o simples fato da criação de uma organização ou a sua causa defendida, para se justificar uma doação: Seus colaboradores estão mais exigentes, além disso, querem resultados satisfatórios, o que acirra a competição entre as organizações que lutam e buscam novas e eficientes formas de atrair recursos.

 

É importante ressaltar a dificuldade que se é administrar satisfatoriamente uma organização do Terceiro Setor. Isso fica claro quando se tenta definir objetivos, porque objetivos sociais, educacionais e de saúde, para se encurtar, são complicados de se estimar resultados de longo prazo. Como fica difícil especificar objetivos, medir e monitorar as realizações também se torna tarefas complicadas.

 

A diversidade de interesses de membros e colaboradores faz com que a influência que os mesmos têm sobre a organização se torne mais complexa na definição de metas.

 

A complexidade das estruturas administrativas se dá devido à dificuldade de se chegar a um denominador comum e abordar as peculiaridades dos grupos como comissões, e subcomissões que ocupam posições legítimas na estrutura.

 

A eficiência das organizações se torna mais fáceis quando há por parte das pessoas envolvidas, um partilha de idéias e valores sobre os rumos e a operacionalização. Os valores devem prevalecer sobre qualquer divergência, arrefecendo os riscos de desmotivação e divergências internas.

 

Concomitante a isso, o voluntariado, ingrediente essencial, se vê mais oportuno e passível de ser parte do todo onde em troca de sua cooperação e depreciação, seus pontos de vista e opiniões podem fazer parte na tomada de decisões.

 

Voltando ao ponto de escassez dos recursos, para os administradores se torna inviável a projeção de fluxo de caixa pra se traçar prioridades futuras e investimentos. O consenso e decisões internas são as armas para se desenvolver critérios próprios para se tornar mais atrativos à captação de recursos externos que os concorrentes.

 

O risco iminente de que a administração é capaz de solucionar todos os problemas das organizações, deve ser tratado com muita cautela. Tal impressão pode desfocar a real ideologia do Terceiro Setor que é a esfera pública e não estatal que minimiza ou soluciona

deficiências e lacunas sociais de obrigação do Estado.

 

De fato, há muito de se melhorar em relação à gestão organizacional para o Terceiro Setor. Com isso, os resultados podem ser surpreendentes em termos de eficiência no emprego dos recursos e de eficácia nos resultados. Mas não se pode cair na armadilha de que o único problema do Terceiro Setor é a gestão amadora. Outros fatores intrínsecos à difícil e complicada estrutura entre os níveis organizacional, setorial e público abrangem o contexto.

 

No plano organizacional, o desafio consiste no alcance da eficiência, eficácia e perpetuidade organizacional.

 

Na visão setorial, o principal objetivo está no fomento e consolidação do Terceiro Setor ao estado e mercado.

 

A questão pública traz consigo a busca de soluções pra as deficiências na política e execução de planos públicos.

 

EMPREENDEDORISMO SOCIAL

 

O empreendedorismo social originou-se na década de 90, decorrente da crescente problematização social e consequentemente da maior participação das empresas no investimento nas ações sociais e crescimento das organizações do terceiro setor. Apareceu inicialmente como uma derivação do empreendedorismo privado, mas vem assumindo características próprias, que fazem com que o empreendedorismo social se distinga não só de empreendedorismo empresarial, mas também da responsabilidade social, como podemos observar no quadro a seguir.

 

Características do Empreendedorismo Social, Responsabilidade Empresarial e Empreendedorismo Privado

 

EMPREENDEDORISMO

PRIVADO

 

RESPONSABILIDADE

SOCIAL

EMPRESARIAL

 

EMPRESARIAL

EMPREENDEDORISMO

SOCIAL

 

É individual.

É individual com possíveis

parcerias.

 

É coletivo e integrado.

Tem foco no mercado.

Tem o foco no mercado e

atende à

comunidade conforme sua      

missão.

Tem o foco na busca de

soluções para

os problemas sociais e

necessidades da

comunidade.

Sua medida de

desempenho é o lucro.

Visa a agregar valor

estratégico ao

negócio e a atender

expectativas do

mercado e da percepção

da

sociedade/consumidores.

Visa a resgatar pessoas da

situação de

risco social e a promovêlas,

e a gerar

capital social, inclusão e

emancipação

social.

 

 

Desta forma, pode-se observar que o empreendedorismo social se trata de uma ação inovadora, assim como o empreendedorismo empresarial, mas porém, voltado para o campo social. Além disso, apesar de estar ligado às ações sociais, assim como a responsabilidade social empresarial, o empreendedorismo social tem foco única e exclusivamente na comunidade.

 

Ao se falar de empreendedorismo social, a “ideia empreendedora” deve apresentar algumas características fundamentais, como ser inovadora, ser realizável, ser auto-sustentável, envolver várias pessoas e segmentos da sociedade (principalmente a população atendida), provocar impacto social e permitir que seus resultados possam ser avaliados.

 

Logicamente por detrás de uma organização social empreendedora, deve haver um empreendedor social, que caracteriza por ser uma pessoa com características de um empresário tradicional de visão, criatividade e determinação, mas que emprega e focaliza na inovação social. O empreendedores sociais “são agentes de intercambiação da sociedade por meio de: proposta de criação de idéias úteis para resolver problemas sociais, combinando práticas e conhecimentos de inovação, criando assim novos procedimentos e serviços; criação de parcerias e formas/meios de auto - sustentabilidade dos projetos; transformação das comunidades graças às associações estratégicas; utilização de enfoques baseados no mercado para resolver os problemas sociais; identificação de novos mercados e oportunidades para financiar uma missão social”.

 

Enfim, podemos resumir empreendedorismo social como a inovação de empreendimentos sociais, que aliam ferramentas empresariais e o comprometimento e engajamento social, constituindo a “contribuição efetiva de empreendedores sociais inovadores cujo protagonismo na área social produz desenvolvimento sustentável, qualidade de vida e mudança de paradigma de atuação em benefício de comunidades menos privilegiadas” (Oliveira, 2004).

 

 

 

Bibliografia

 

HASHIMOTO, Marcos. Empreendedorismo no terceiro setor. Disponível em:

https://www.administradores.com.br/colunas.jsp?idColuna=565&idColunista=26. Acesso em:12-04-2006.

 

HUDSON, M. Administrando organizações do terceiro setor: o desafio de administrar sem receita. Tradução James F. Sunderland Cook, revisão técnica Luiz Carlos Merege. São Paulo:Makron Books, 1999.

 

MELO NETO, Francisco Paulo. FROES, César. Responsabilidade social e CidadaniaEmpresarial: Administração do Terceiro Setor. Rio de janeiro. Editora Quilataram, 1999.

 

OLIVEIRA, Edson Marques. Empreendedorismo social no Brasil: atual configuração, perspectivas e desafios –notas introdutórias. Revista da FAE - Volume 7 / nº 2 julho/dezembro – 2004. Disponível em:

https://www.fae.edu/publicacoes/pdf/revista_da_fae/fae_v7_n2/rev_fae_v7_n2_02.pdf.

 

MELO NETO, Francisco Paulo de; FROES, César. Empreendedorismo social: a transição para a sociedade sustentável. Rio de Janeiro: Qualitymark, 2002.

MESQUITA, Rui. Do Protagonismo ao Empreendedorismo Social. Disponível em: https://www.academiasocial.org.br .

 

Rafael Dantas Calvette é economista, professor da Universidade Federal de Goiás.

 

Fonte: Escola do Terceiro Setor